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SEIS HORAS:
Hoje, 27 de agosto de 2025
Mal amanhece, faço o “Pelo Sinal da Santa Cruz”, fico sentado um minuto na cama, levanto-me agarrado à rede ao lado e vou ao banheiro, apressadamente, para não molhar o pijama. Retorno, arrumo a cama. Tento não fazer barulho, mas a rotineira pergunta logo é feita pela minha eterna companheira:
– Que horas?
– Seis horas.
– Por que tão cedo?
– Pode parecer brincadeira, mas exatamente agora, com 86 anos de vida – arrastando o peso que esses tantos anos me colocaram nas costas – está sendo a fase que mais estou amando viver. Com o dia clareando, se eu continuar dormindo, estarei desperdiçando a oportunidade de admirar o nosso Criador. Espero um dia entender um pouquinho da perfeição de Deus. Em tudo que olho fico boquiaberto imaginando a perfeição como tudo foi criado. Se nosso Criador desse aos maiores gênios criados, a liberdade de optarem sobre uma única modificação, com certeza não nos satisfaria.
Quando em vez posso notar um pontinho milesimal se movendo milimetricamente. Não decifro se é ilusão ótica ou um ser vivo. Busco minha lupa e examino: é um ser vivo. Certamente tem olhos, pernas para se mover, boca para comer, coração, enfim, essas coisas que, normalmente fazem parte de todo ser vivo. Meu Deus: como centenas de funções indispensáveis puderam ser criadas funcionando? Mais agravante é quando notamos que há seres invisíveis e com vida, como bactérias, vírus etc.
Saio do quarto, abro as portas e janelas, sento-me na varanda, e mesmo com a vista cansada, olho para o céu e fico admirando a perfeição de Deus. Pássaros despertando, flores se abrindo, minhas bananeiras e demais plantas frutíferas bem verdinhas, tudo bem cuidado e frutificando. Passo alguns minutos pensando nos mistérios que envolvem a existência de Deus. De repente, sacudo a cabeça de um lado para o outro, tentando inutilmente, não perder meu tempo em tão ousada tentativa. É que nunca consegui desistir dos mistérios, ainda que tenha tentado desde meus 20 anos. Consigo convencer-me de Sua existência, mas jamais de não ter princípio.
Depois de uns 20 minutos ali, sentado na aposentada cadeirinha de caçador, correndo os olhos do céu aos meus pés, imaginando o Sol despontando, cansado de puxar a Terra que voaria sem rumo, mais veloz que uma bala de canhão – não fosse a intensa gravidade exercida por ele. Firmo-me na pesada mesa de angelim pedra, e mergulhado num renque de afazeres.
Para iniciar tomo uma velha vassoura e embalo minha admiração, ao salutar barulhinho de amontoar as folhas secas que caíram durante a noite. Em menos de uma hora o quintal se torna digno de receber qualquer visita.
Lembro sempre que amanhã, sendo a vontade de Deus, estarei aqui nesta mesma cadeirinha agradecendo o Criador por estar aqui sentado mais um dia. Levanto-me a seguir, vou cuidar dos cachorros, dos gatos, das galinhas, das fruteiras, de cada detalhe deste pedacinho de céu que me foi confiado cuidar. É por isto que levanto cedo. Como disse Tancredo Neves: para dormir terei a eternidade.